RSS

Arquivo da tag: Simplicidade

Quando se faz de conta que não sabe

Escrevo mais um pensamento: o de imaginar certas pessoas que não são “nada” e ao mesmo tempo são tão únicas e especiais.

A anciã poetiza, o jardineiro espiritual, o coletor de lixo profeta… Acho que era isso que Fernando Pessoa, ou melhor, Bernardo Soares, o ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, quis expressar:

 “Mas o contraste não me esmaga – liberta-me; e a ironia que há nele é sangue meu. O que devera humilhar-me é a minha bandeira, que desfraldo; e o riso que deveria rir de mim, é um clarim com que saúdo e gero uma alvorada em que disfarço. A glória noturna de ser grande não sendo nada! A majestade sombria de esplendor desconhecido… E sinto, de repente, o sublime do monge no ermo, do eremita no retiro, inteirado da substância de Cristo nas pedras e nas cavernas do afastamento.”  

É gratificante quando podemos responder várias perguntas complexas, místicas, psíquicas, filosóficas, teológicas… Ou seria pura besteira? Melhor mesmo é quando nos fazemos de tolos, abrimos mão do falar e só ouvimos, desenhamos na areia, vivemos os sonhos dos outros ou percebemos que diferença é soma.

Ao brincarmos com crianças, fazendo-lhes perguntas, ficamos satisfeitos com suas respostas. No mínimo, conquistam nossos sorrisos. Algumas gostam de inverter os papéis ou, do que chamam,  “brincar de professor”… O barato, é fazer de conta que não sabemos, é ser apenas um aprendiz.

Enfim, quando o poder de não exercer o poder for algo a se desejar, não precisaremos das glórias dos homens, tampouco do nosso orgulho; ansiaremos poucas coisas até. Tentaremos esquecer menos dos nomes daqueles que julgamos não serem tão importantes e nos aqueceremos mais do frio. Afinal, os ombros estarão bem mais próximos.

 

Jhônatas Cabral    

 
2 Comentários

Publicado por em outubro 17, 2008 em Quartos

 

Tags: , , , , , , , ,

Ephemeroptera

Que derradeiro pensamento terei antes do último suspiro de vida?

Independentemente do querer ser poder, quero que seja uma lembrança sem lamento; Melhor, várias lembranças.

Aquilo que vier da memória de uma criança, pessoas. O bem que fizeram acima do mal, retalhos de timbres, sorrisos, lágrimas, mãos. Sentir um pensamento de afeto ali mesmo entre o último e o primeiro suspiro. Lembrar talvez da resistência em vir ao mundo e da resistência de sair dele. Rir desses paradoxos e descobrir que não dá para descobrir tudo, tão-somente imaginar. Perceber a proximidade do início e do fim e a distância enorme que obtive de pessoas próximas, e já não precisar saber de mais nada a não ser aceitar o que o cérebro programa através da junção de lembranças e sentimentos.

No último suspiro de vida talvez não reste tanto tempo assim, até porque o tempo de tudo isso já foi vivido. Se praticado ou não, se pensado ou não, o fato é que penso agora sobre essa tríade: passado, presente e futuro. Acho que sou melhor na leitura dos espaços das mãos do que de suas linhas. Acho que convicção é, sobretudo, achar o sentido da busca e não encontrar o que se procura, assim como a importância do percurso e a clareza das atitudes humanas. Mas o agora já não existe mais. E agora? Não ouso afirmar, porém certas perguntas não carecem de respostas, o tesouro escondido está bem achado diante da forma de visão que se tem, a qual também nem precisa de olhos. É prazeroso brincar com a confusão, principalmente quando tudo não passa de simplicidade, apenas um suspiro, uma respiração, um pensamento derradeiro. 

Jhônatas Cabral

 
1 comentário

Publicado por em setembro 2, 2008 em Perguntas precisam de respostas?

 

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Amizadear

Jardins

 

Amigos se entendem sem precisar falar.
Vivem em sintonia nos pensamentos,
na alegria ou no pezar.
Vez por outra, costumam expressar:
– Acho que já nos conhecemos de muito tempo
ou talvez de algum lugar.
Proseiam lembranças e brotam acalantos ternos
onde os abraços e a estima aquecem o coração.
Não existe a tristeza que não possa ser valiosa.
Antes, os laços que prendem suas vidas são revestidos de ternura de criança,
daquele olhar benfeitor.
A cada dia se percebem amigos;
Afinal, riem juntos com os ponteiros parados de um tempo
que se apressa em contar as horas de uma nova chegada, de uma nova estação.
Amigos se gostam e se encontram sempre na simplicidade.
Eles deixam todos bem perto, ou seja, livres.
Nos amigos, os sonhos são revelados e a taça nunca está vazia…
há um destino de felicidade a cada prosa, a cada travessia.

Os amigos
são
jardins.
 
 

   Jhônatas Cabral (Agosto -2008) 

 

 

 
1 comentário

Publicado por em agosto 26, 2008 em Poemas

 

Tags: , , , , , , , , , , , , ,

A imagem é de um filme não recomendado para insensíveis.

O Rubem Alves é uma das minhas maiores influências literárias.

 

Perceber sua pregação com seu timbre, a simplicidade de apresentar de uma forma nova aquilo que já existe de belo, um clamor às coisas mais importantes, verdadeiras e puras como uma criança… Sentir e pensar, escrever, dar algo de bom às pessoas…

Ele é um grande encorajador de tudo isso. E é muito bom acreditar que vale a pena acreditar.

 

“Todo feto quer nascer, todo sonho quer se realizar. Sementes que não nascem, fetos que são abortados, sonhos que não são realizados, se transformam em demônios dentro da alma. E ficam a nos atormentar. Aquelas tristezas, aquelas depressões, aquelas irritações – vez por outra elas tomam conta de você – aposto que são o sonho de jardim que está dentro e não consegue nascer. Deus não tem muita paciência com pessoas que não gostam de jardins…Menino, os jardins eram o lugar de minha maior felicidade. Dentro da casa os adultos estavam sempre vigiando: “Não mexa aí, não faça isso, não faça aquilo…“ O Paraíso foi perdido quando Adão e Eva começaram a se vigiar. O inferno começa no olhar do outro que pede que eu preste contas. E como as crianças são seres paradisíacos, eu fugia para o jardim. Lá eu estava longe dos adultos. Eu podia ser eu mesmo. O jardim era o espaço da minha liberdade. O jardim era o espaço da minha liberdade. As árvores eram minhas melhores amigas. A pitangueira, com seus frutinhos sem vergonha. Meu primeiro furto foi o furto de uma pitanga: “furto“ – “fruto“ – é só trocar uma letra…. Até mesmo inventei uma maquineta de roubar pitangas… Havia uma jabuticabeira que eu considerava minha, em especial. Fiz um rego à sua volta para que ela bebesse água todo dia. Jabuticabeiras regadas sempre florescem e frutificam várias vezes por ano. Na ocasião da florada era uma festa. O perfume das suas flores brancas é inesquecível. E vinham milhares de abelhas. No pé de nêspera eu fiz um balanço. Já disse que balançar é o melhor remédio para depressão. Quem balança vira criança de novo. Razão por que eu acho um crime que, nas praças públicas, só haja balancinhos para crianças pequenas. Há de haver balanços grandes para os grandes! Já imaginaram o pai e a mãe, o avô e a avó, balançando? Riram? Absurdo? Entendo. Vocês estão velhos. Têm medo do ridículo. Seu sonho fundamental está enterrado debaixo do cimento. Eu já sou avô e me rejuvenesço balançando até tocar a ponta do pé na folha do caquizeiro onde meu balanço está amarrado!” (Rubem Alves)

 

 
 
 
 
 

 

 
Deixe um comentário

Publicado por em julho 13, 2008 em Quartos

 

Tags: , , ,