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A poesia surge do espanto

 

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  “O poema nasce do espanto, e o espanto decorre do incompreensível. Vou contar um história: um dia, estava vendo televisão e o telefone tocou. Mal me ergui para atendê-lo, o fêmur de uma das minhas pernas roçou o osso da bacia. Algo do tipo já acontecera antes? Com certeza.  Entretanto, naquela ocasião, o atrito dos ossos me espantou. Uma ocorrência explicável, de súbito, ganhou contornos inexplicáveis. Quer dizer que sou osso? – refleti, surpreso. Eu sou osso? Osso pergunta? A parte que em mim pergunta é igualmente osso? Na tentativa de elucidar os questionamentos despertados pelo espanto, eclode um poema. Entende agora por que demoro 10, 12 anos para lançar um novo livro de poesia? Porque preciso do espanto. Não determino o instante de escrever: hoje vou sentar e redigir um poema. A poesia está além de minha vontade. Por isso, quando me indagam se sou Ferreira Gullar, respondo: às vezes.” 

Ferreira Gullar. Bravo, mar/2009   

 
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Publicado por em junho 26, 2009 em Pensando pensamentos, Quartos

 

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Fragmentos ao sabor do vento

“João amava Teresa que amava Raimundo
Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
Que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
Que não tinha entrado na história”.

 

Hoje, esse lindo poema do Mestre Drummond já não é uma comédia como era para mim na adolescência, percebo sua profundidade…

Amar é magnífico quando flui dos dois lados, quando não se tem dúvidas e isso se torna um padrão. Quando não vivemos isso, evidencia-se então uma busca incessante, um desnortear de sentimentos em detrimento a essa música tão melódica e sublime. Entre parênteses: Como não sou muito fã da unanimidade, valorizo as dúvidas. 

Procurar e/ou ser achado, esperar e/ou perceber ao redor, aceitar e/ou vê no que dá… Afinal, quais conceitos devemos abraçar? Amar é uma arte, e devemos ser artistas e não somente atores. O encontro do solo com o dueto. Vivendo como solistas, saberemos viver o dueto?

A definição vem sempre acompanhada de perdas, talvez por isso interrogamos  tanto. Evidencia-se que capacidade de amar é uma coisa, e capacidade de ser amado é outra. Então como fugir do amor? Todos amam, todos são amados: Conclusão de sentimento do poema. Cada ser tem sua forma de revezar seus papéis. Olhar para trás e extrair o valor de cada carta não lida, de cada beijo não dado, de cada dor não consolada, de cada eu não encontrado, é alcançar o botão que liga o sorriso de “satisfação” do amor, sua estratégia funciona.

Thomas Merton, a quem tenho profunda admiração por sua vida e obra, escreveu que: “O amor não é uma questão de se obter o que se deseja. Muito pelo contrário. A insistência em sempre ter o que se deseja, em sempre obter satisfação, em sempre ser saciado, torna o amor impossível. Para amar, você precisa sair do berço, onde tudo é ‘obter’, e crescer para a maturidade da doação, sem se preocupar em obter alguma coisa especial em troca. O amor não é uma transação, é um sacrifício. Não é marketing, é uma forma de culto. Na realidade, o amor é uma força positiva, um poder espiritual transcendente. É, de fato, o poder criativo mais profundo na natureza humana. Enraizado nas riquezas biológicas de nossa herança, o amor floresce espiritualmente como liberdade e como resposta da criatura à vida num encontro perfeito com uma outra pessoa. É uma apreciação viva da vida como valor e como dom. Responde à fecundidade, à variedade e à total riqueza da própria experiência viva; ele ‘conhece’ o mistério interior da vida. Deleita-se com a vida como uma fortuna inesgotável. O amor aprecia essa fortuna de uma maneira impossível ao conhecimento. O amor tem a sua própria sabedoria, sua própria ciência, sua própria maneira de explorar as profundezas interiores da vida no mistério da pessoa amada. O amor sabe, compreende e satisfaz as exigências da vida, na medida em que responde com calor, abandono e entrega.”

O amor é o sentido e é tão amplo… Só podemos escrever e falar pouco até; já viu mistério ser revelado por completo? Deus é mistério, Deus é amor. E já concordo com Rubem Alves quando diz que: “A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo”.

 

 Jhônatas Cabral 

 
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Publicado por em setembro 3, 2008 em Quartos

 

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O poeta que queria chegar ao coração

 

Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!

 

Fernando Pessoa, 5-9-1934.
 
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Publicado por em setembro 2, 2008 em Poemas

 

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Café com Letras, num capítulo qualquer.

         

 

               Sou um amante da prosa, dessa forma livre de criatividade, dos versos imperfeitos, da benfeitoria da prosopopéia que humaniza os caprichos do poeta. Carecemos das palavras selvagens, da possibilidade de o dizer e o pensar. Não obstante, vez por outra, nos prendemos aos versos, servos do interlúdio poético, como passagem à música regente da prosa. Essa verdade vestida, tão Cristã!

 

Ensandeço, sim! Prudentemente, sobretudo, nas parábolas, nos contos, onde sutilmente nossa alma é penetrada, sondada, pela imortalidade do conhecer-se.

 

Se deveras me torno ambíguo, é porque a naturalidade das coisas se mostra por meus tons abstratos, por minhas bolhas quadradas… Faço festas, convido os pensamentos num sarau em círculos e cantamos nesse voluntário ritual. Afinal, pássaros selvagens sempre retornam ao pomar dos que os alimentam pelo simples prazer de alimentar.     

 

 

 
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Publicado por em maio 22, 2008 em Quartos

 

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Em algum lugar

                                                                                                                                                                          cadê ela?

Lua nova… Onde ela está?

Cadê ela?

Ela está aqui em algum lugar, eu sei.

Não a vejo, mas a sinto.

Eu sei…

Agora vejo!

E a vejo como um cego.

Eu tenho minhas pequenas mãos, posso desenhá-la.

Melhor, posso tocá-la.

De barco a levo como linguagem ao cérebro.

E ele me diz o que vejo.

Com o corpo inteiro ouço os sons:

Aqueles sussurros, aquelas prosas

de sentimentos

mudos.  

Lua nova, ela me vê!

Jhônatas Cabral

 
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Publicado por em março 21, 2008 em Poemas

 

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Tarde

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Fim de tarde,
Pajuçara.
Contempláva-mos duas crianças:
Uma velha, uma nova.
A velha passeava a passos calmos,
com sua bengala.
A nova agitava os passos dos pais
com seu sorriso de aventura.
Lembrei-me de uma frase de T.S.Elliot,
pensei em recitá-la a ela.
Era tarde demais.
Ela ouviu meu timbre por meus olhos:
“O fim de toda a nossa exploração
Será chegar ao ponto de partida
E conhecê-lo pela vez primeira.” 

 

Jhônatas Cabral

 
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Publicado por em fevereiro 21, 2008 em Poemas

 

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Filosofia: rima com poesia.

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Além da curva é a vida que se apresenta a cada segundo.

                                                       Segundo o que a vida

                                                                           apresenta além do Se.

 

Jhônatas Cabral

 
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Publicado por em fevereiro 9, 2008 em Poemas

 

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