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Arquivo da tag: Fernando Pessoa

Pessoa e a travessia

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

 

Fernando Pessoa

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Quando se faz de conta que não sabe

Escrevo mais um pensamento: o de imaginar certas pessoas que não são “nada” e ao mesmo tempo são tão únicas e especiais.

A anciã poetiza, o jardineiro espiritual, o coletor de lixo profeta… Acho que era isso que Fernando Pessoa, ou melhor, Bernardo Soares, o ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, quis expressar:

 “Mas o contraste não me esmaga – liberta-me; e a ironia que há nele é sangue meu. O que devera humilhar-me é a minha bandeira, que desfraldo; e o riso que deveria rir de mim, é um clarim com que saúdo e gero uma alvorada em que disfarço. A glória noturna de ser grande não sendo nada! A majestade sombria de esplendor desconhecido… E sinto, de repente, o sublime do monge no ermo, do eremita no retiro, inteirado da substância de Cristo nas pedras e nas cavernas do afastamento.”  

É gratificante quando podemos responder várias perguntas complexas, místicas, psíquicas, filosóficas, teológicas… Ou seria pura besteira? Melhor mesmo é quando nos fazemos de tolos, abrimos mão do falar e só ouvimos, desenhamos na areia, vivemos os sonhos dos outros ou percebemos que diferença é soma.

Ao brincarmos com crianças, fazendo-lhes perguntas, ficamos satisfeitos com suas respostas. No mínimo, conquistam nossos sorrisos. Algumas gostam de inverter os papéis ou, do que chamam,  “brincar de professor”… O barato, é fazer de conta que não sabemos, é ser apenas um aprendiz.

Enfim, quando o poder de não exercer o poder for algo a se desejar, não precisaremos das glórias dos homens, tampouco do nosso orgulho; ansiaremos poucas coisas até. Tentaremos esquecer menos dos nomes daqueles que julgamos não serem tão importantes e nos aqueceremos mais do frio. Afinal, os ombros estarão bem mais próximos.

 

Jhônatas Cabral    

 
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Publicado por em outubro 17, 2008 em Quartos

 

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“Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.”

(A. Caeiro) F. Pessoa

 
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Publicado por em outubro 3, 2008 em Poemas

 

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O poeta que queria chegar ao coração

 

Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!

 

Fernando Pessoa, 5-9-1934.
 
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Publicado por em setembro 2, 2008 em Poemas

 

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