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Sobre cegueira e catchup

07 jan

Baseado no filme Ensaio sobre a cegueira, na crônica de Rubem Alves “Tênis x Frescobol” e no livro Ortodoxia de Chesterton, venho dividir algumas percepções sobre corações de pedra e corações amolecidos.

 

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Uma das cenas que mais chamou minha atenção no filme, foi a de cães desesperados por alimento, creio eu, cegos também, devorando uma pessoa morta. Ao passo que a atriz principal (a única personagem que enxergava) era, paradoxalmente, acariciada por um outro cãozinho afetuoso que mais parecia um peregrino em busca de sua alma gêmea. Eles se reconheceram: podiam enxergar, sorrir e dividir o fardo de seus corações altruístas.

 

Em minha jornada, venho provando o gosto amargo de muitos corações de pedra. Gente que doei pedaços de mim, abrigo, amizade, olhares de afeto. Mas, por alguma coisa que se perdeu no caminho, têm me dado o avesso de tudo isso. Até o fato de saber que o amor é algo cujo não se espera a reciprocidade, eu já entendia. Minha surpresa tem sido uma flor doida que insiste em nascer mesmo no mais árduo deserto do meu ser: A esperança.

 

Meu coração tão enganoso, tão ambíguo, tende a ser mais amolecido. E eu preciso aceita-lo como ele é. A isso eu chamo de o poder de não exercer o poder.

 

Ultimamente, venho fazendo um teste com algumas pessoas “próximas”. E, para aqueles que detestam se desapontar com outras pessoas ou não querem ficar sujas de catchup, aconselho não seguir meu exemplo.  

Em alguma lanchonete, num determinado momento, peço a um dos meus amigos que segurem o catchup e aponte para meu rosto. Faço a seguinte pergunta: – Você tem coragem de jogar catchup em mim?

A primeira vez que fiz essa pergunta foi a uma amiga.  Tinha certeza que ela não me sujaria e, para minha surpresa e a de todos, fiquei com catchup no meu olho direito. Desapontado, ri de mim mesmo. Ao sair do local, caminhando, ela se aproximou e pensei: – Acho que pedirá desculpas, mas em tom de superioridade me disse: – Tá vendo que eu tenho coragem? E respondi: – Tranqüilo… O importante foi isso: você venceu o desafio, mostrou que teve coragem…. Você tinha em suas mãos o poder de não exercer o poder.

 

Não sei ao certo se ela entendeu minha real intenção que era a de proporcionar uma reflexão sobre nosso egocentrismo, nossas formas de “cortar” o outro, humildade e superioridade. Contudo, também percebi essa dualidade da vida ao fazer o mesmo teste com uma outra amiga que por ser mais “desbocada” e termos visões diferentes de vários assuntos, seria mais propícia a repetir a bela cena de me sujar de catchup. E, para meu espanto ela não o fez, disse: -Tá louco? Até que você tá merecendo, mas não faria isso com você meu amigo.

 

Não creio que minha amiga do primeiro teste tenha um coração de pedra. Sobre isso, refiro-me a outras pessoas, mas fico a imaginar que os corações começam a se petrificar dessa forma. Pequenos gestos de supremacia, desejos ocultos de sermos exaltados, pensamentos “tênis” que almejam a vitória dos argumentos numa cortada, em tirar o outro da jogada. Palavras de reis soberanos, donos da verdade, os quais nem prestam muita atenção no que dizemos, pois se assim o fizerem, não lhes restará tempo para sua próxima fala.300px-nd_dn_2006fo

 

 

Acho que o amor é muito mais ouvir que falar. Corações amolecidos que regam aquela flor doida que insiste em nascer. Pensamentos “frescobol” que almejam não a cortada, mas a continuação. O desejo de que a bola do outro não caia.1870887

 

 

 

A matemática e o português podem andar de mãos dadas. O lógico e o poeta também? Tem certeza que a água e o óleo não se misturam? Se quisermos ver as estrelas precisamos também da… Escuridão? E o destino? Não pode fazer um dueto com o livre-arbítrio? Existem coisas importantes que servem para nos trazer ao eixo, para dentro de nós, coisas centrípetas. Entretanto há coisas mais importantes que nos fazem estender nossos braços como forma de encontro, propagação, coisas centrífugas.  

Acho que enxergamos melhor quando somos comuns, quando admiramos a juventude por ela ser jovem e a velhice por não ser. Um equilíbrio de aparentes contradições onde acreditamos que a lucidez é encontrada quando permitimos o misticismo. Para que nossos corações não se petrifiquem, imagino que devemos ter um pé na terra e outro num mundo encantando. Aí quem sabe, os corações amolecidos obedeçam ao reino na terra e os corações de pedra acreditem que as crianças são de fato o reino dos céus.

  

Jhônatas Cabral

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3 Comentários

Publicado por em janeiro 7, 2009 em Quartos

 

3 Respostas para “Sobre cegueira e catchup

  1. Neo

    janeiro 7, 2009 at 14:35

    Reticências…

    Grande abraço amigo

    Neo

     
  2. Samantha

    janeiro 14, 2009 at 14:35

    Olha, confesso q estou sem palavras para comentar …
    Fiz de sua reflexão a minha também; mas não exatamente com catchup hehehehehe…
    Mas parei para analisar melhor as atitudes das pessoas e o quão egoístas elas são.
    I-NA-CRE-DI-TÁ-VEL-MEN-TE somos surpreendidos pelas pessoas que em tese não poderiam nos surpreender da forma mais vil.
    Ainda bem que sofrimento não mata, mas, nos ensina a viver
    beijão carinhoso procê

     
  3. Neo

    janeiro 16, 2009 at 14:35

    Samanta filosófica hein… ehehe

    Cadê você amigo?

    Abraço!

     

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