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Arquivo mensal: setembro 2008

Eu, robô?

                                                         

      Dia desses, vi uma reportagem sobre tal “médico-robô”, aqui no Brasil, no hospital Sírio-Libanês em São Paulo. Na realidade um auxiliar robótico chamado de “Da Vinci” equipamento com quatro “braços” pelo qual o cirurgião os comanda a partir de uma espécie de controle remoto e visualiza o local da operação numa tela de vídeo com imagens bem definidas e em 3D. Fiquei impressionado com essa tal cirurgia robótica, mais um grande avanço tecnológico. Já se projeta, num futuro próximo, a robótica sendo incluída nas residências assim como a tele-medicina. No entanto, comecei a pensar na substituição do ser humano, no aumento do desemprego, no que se perde e no que se ganha com tanta tecnologia.
     Com a chegada do “Da Vinci”, por exemplo, quatro auxiliares médicos partiram. Alguém ainda vê nos supermercados o embalador? Enquanto embalamos nossas compras mais uma profissão é extinta. O número de bancários vem aumentando ou diminuindo? Ao aceitar a “sugestão” de sairmos das filas e fazermos operações no caixa rápido, ou a praticidade de um “Internet Banking” ratificamos a justificativa da não necessidade de contratação. No “e-commerce”, apresenta-se, na tela do monitor do computador, inúmeros produtos e os detalhes de seu funcionamento e modo de usar e também se realizam financiamentos e transações comerciais apenas com o fornecimento do número do cartão de crédito, menos um vendedor? E quando essas mudanças não ocorrem, a problemática gira em torno das atualizações, treinamento e especializações de profissionais, além da acirrada competitividade.
      É bem verdade também, que ao passo que desaparecem profissões, novas profissões surgem. Entretanto, para quem surgem? Para os que são analfabetos e/ou “desatualizados”? Mais uma conseqüência: a exclusão social.
      Não quero “cuspir no prato que eu como”, não quero agora deixar de tomar coca-cola, ser um protecionista disfarçado, deixar de usufruir os “mp3,4,5…1000”, cair na vã hipocrisia de ser um “anti-globalizado”. Mas quero poder fazer alguma coisa, diminuir a distância e a desigualdade, ser uma voz não falante apenas de palavras, ter mais paciência com minha mãe e suas limitações com a informática, praticar cidadania, perceber as segundas intenções e combatê-las.
     Saber dizer não às “etiquetas” como estilo de vida, saber viver o não, ter orgulho das minhas opiniões diferentes, deixar, quando eu quiser, crescer naturalmente minha barba, ser apenas mais humano. Não, não dá para apenas ser controlado por opressores e neoliberais que só visam o lucro, a mão-de-obra barata, ou a extinção dela. Não, eu não sou um robô.
 

Jhônatas Cabral

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Publicado por em setembro 24, 2008 em Quartos

 

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Coisas de rever,ouvir, ler e contemplar.

 

Samba de uma nota só (Tom Jobim)

Eis aqui este sambinha feito numa nota só.
Outras notas vão entrar, mas a base é uma só.
Esta outra é conseqüência do que acabo de dizer.
Como eu sou a conseqüência inevitável de você.
Quanta gente existe por aí que fala tanto e não diz nada,
Ou quase nada.
Já me utilizei de toda a escala e no final não sobrou nada,
Não deu em nada.
E voltei pra minha nota como eu volto pra você.
Vou contar com uma nota como eu gosto de você.
E quem quer todas as notas: ré, mi, fá, sol, lá, si, dó.
Fica sempre sem nenhuma, fique numa nota só.

 
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Publicado por em setembro 24, 2008 em Sobre música e sentimento

 

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Dylan, o Bob?

 

Não sei se é pura admiração ou certo tipo de identificação. O fato, é que estou redescobrindo Bob Dylan de uma forma muito investigativa através de documentários, filmes, suas canções, seu universo particular. Não procuro desvendá-lo, aliás, ele já não liga para quem não o compreende há muito tempo, mas extrair coisas boas, verdades nuas, máscaras retiradas.

Numa certa entrevista em 2004, Dylan comentou que o fato de que a geração dos anos 60 o tenha transformado em um herói fez com que, muitas vezes, ele se sentisse como “um impostor”. “Era como estar em um conto de Edgar Allan Poe, no qual uma pessoa não é o tipo de pessoa que todo mundo pensa que é apesar de todo o mundo se referir a ela dessa forma”

A sensação a qual tenho é a de que Dylan é alguém bem verdadeiro, alguém muito sensível que sofre da solidão dos pensamentos inconformados, assim como é feliz em ser ele mesmo, melhor dizendo, “eles” mesmos.     

 

Gotta Serve Somebory

You may be a state trooper, you might be a young Turk,
You may be the head of some big TV network,
You may be rich or poor, you may be blind or lame,
You may be living in another country under another name

You may be a preacher with your spiritual pride,
You may be a city councilman taking bribes on the side,
You may be in a barbershop, you may know how to cut hair,
You may be somebody’s mistress, may be somebody’s heir

Might like to wear cotton… might like to wear silk,
Might like to drink whiskey, might like to drink milk,
You might like to eat caviar, you might like to eat bread,
You may be sleeping on the floor, or in a king-sized bed

But you’re gonna have to serve somebody,
yes indeedYou’re gonna have to serve somebody.
It may be the devil, or it may be the Lord
But you’re gonna have to serve somebody.

Bob Dylan

 

Uma tradução possível:

 

 

Você pode ser um soldado do governo ou pode ser um jovem turco,

pode ser o dono de uma grande rede de TV.

Você pode ser rico ou pobre, pode ser cego ou coxo.

Você pode estar em um outro país, vivendo com outro nome.

Você pode ser um pregador cheio de orgulho espiritual.

Você pode ser um vereador aceitando propinas por baixo do pano.

Você pode estar numa barbearia e saber cortar cabelo,

Você ser a amante de alguém, ou um herdeiro.

Pode ser que você goste de algodão… ou quem sabe seda,

talvez goste de tomar uísque… ou quem sabe leite

talvez goste de comer caviar… ou quem sabe pão,

talvez durma no chão, ou quem sabe numa cama de casal

mas você estará servindo a alguém, sim, é verdade

você estará servindo a alguém.

Pode ser o diabo, pode ser o Senhor,

mas você estará servindo a alguém.

 

(Dylan)

 
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Publicado por em setembro 22, 2008 em Sobre música e sentimento

 

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Fragmentos ao sabor do vento

“João amava Teresa que amava Raimundo
Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
Que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
Que não tinha entrado na história”.

 

Hoje, esse lindo poema do Mestre Drummond já não é uma comédia como era para mim na adolescência, percebo sua profundidade…

Amar é magnífico quando flui dos dois lados, quando não se tem dúvidas e isso se torna um padrão. Quando não vivemos isso, evidencia-se então uma busca incessante, um desnortear de sentimentos em detrimento a essa música tão melódica e sublime. Entre parênteses: Como não sou muito fã da unanimidade, valorizo as dúvidas. 

Procurar e/ou ser achado, esperar e/ou perceber ao redor, aceitar e/ou vê no que dá… Afinal, quais conceitos devemos abraçar? Amar é uma arte, e devemos ser artistas e não somente atores. O encontro do solo com o dueto. Vivendo como solistas, saberemos viver o dueto?

A definição vem sempre acompanhada de perdas, talvez por isso interrogamos  tanto. Evidencia-se que capacidade de amar é uma coisa, e capacidade de ser amado é outra. Então como fugir do amor? Todos amam, todos são amados: Conclusão de sentimento do poema. Cada ser tem sua forma de revezar seus papéis. Olhar para trás e extrair o valor de cada carta não lida, de cada beijo não dado, de cada dor não consolada, de cada eu não encontrado, é alcançar o botão que liga o sorriso de “satisfação” do amor, sua estratégia funciona.

Thomas Merton, a quem tenho profunda admiração por sua vida e obra, escreveu que: “O amor não é uma questão de se obter o que se deseja. Muito pelo contrário. A insistência em sempre ter o que se deseja, em sempre obter satisfação, em sempre ser saciado, torna o amor impossível. Para amar, você precisa sair do berço, onde tudo é ‘obter’, e crescer para a maturidade da doação, sem se preocupar em obter alguma coisa especial em troca. O amor não é uma transação, é um sacrifício. Não é marketing, é uma forma de culto. Na realidade, o amor é uma força positiva, um poder espiritual transcendente. É, de fato, o poder criativo mais profundo na natureza humana. Enraizado nas riquezas biológicas de nossa herança, o amor floresce espiritualmente como liberdade e como resposta da criatura à vida num encontro perfeito com uma outra pessoa. É uma apreciação viva da vida como valor e como dom. Responde à fecundidade, à variedade e à total riqueza da própria experiência viva; ele ‘conhece’ o mistério interior da vida. Deleita-se com a vida como uma fortuna inesgotável. O amor aprecia essa fortuna de uma maneira impossível ao conhecimento. O amor tem a sua própria sabedoria, sua própria ciência, sua própria maneira de explorar as profundezas interiores da vida no mistério da pessoa amada. O amor sabe, compreende e satisfaz as exigências da vida, na medida em que responde com calor, abandono e entrega.”

O amor é o sentido e é tão amplo… Só podemos escrever e falar pouco até; já viu mistério ser revelado por completo? Deus é mistério, Deus é amor. E já concordo com Rubem Alves quando diz que: “A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo”.

 

 Jhônatas Cabral 

 
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Publicado por em setembro 3, 2008 em Quartos

 

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Ephemeroptera

Que derradeiro pensamento terei antes do último suspiro de vida?

Independentemente do querer ser poder, quero que seja uma lembrança sem lamento; Melhor, várias lembranças.

Aquilo que vier da memória de uma criança, pessoas. O bem que fizeram acima do mal, retalhos de timbres, sorrisos, lágrimas, mãos. Sentir um pensamento de afeto ali mesmo entre o último e o primeiro suspiro. Lembrar talvez da resistência em vir ao mundo e da resistência de sair dele. Rir desses paradoxos e descobrir que não dá para descobrir tudo, tão-somente imaginar. Perceber a proximidade do início e do fim e a distância enorme que obtive de pessoas próximas, e já não precisar saber de mais nada a não ser aceitar o que o cérebro programa através da junção de lembranças e sentimentos.

No último suspiro de vida talvez não reste tanto tempo assim, até porque o tempo de tudo isso já foi vivido. Se praticado ou não, se pensado ou não, o fato é que penso agora sobre essa tríade: passado, presente e futuro. Acho que sou melhor na leitura dos espaços das mãos do que de suas linhas. Acho que convicção é, sobretudo, achar o sentido da busca e não encontrar o que se procura, assim como a importância do percurso e a clareza das atitudes humanas. Mas o agora já não existe mais. E agora? Não ouso afirmar, porém certas perguntas não carecem de respostas, o tesouro escondido está bem achado diante da forma de visão que se tem, a qual também nem precisa de olhos. É prazeroso brincar com a confusão, principalmente quando tudo não passa de simplicidade, apenas um suspiro, uma respiração, um pensamento derradeiro. 

Jhônatas Cabral

 
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Publicado por em setembro 2, 2008 em Perguntas precisam de respostas?

 

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O poeta que queria chegar ao coração

 

Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!

 

Fernando Pessoa, 5-9-1934.
 
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Publicado por em setembro 2, 2008 em Poemas

 

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