Junho 1, 2009
Não é preciso acreditar em Deus para orar. A mãe que arruma o quarto para o filho que já morreu está orando. Ela ora diante de uma ausência. As ausências são a morada dos objetos amados que se perderam no tempo. Oração é a saudade transformada em poema. Oração é o suspiro da criatura oprimida.
Rubem Alves
Um pretexto pra falar de Jesus
Dezembro 1, 2008Na maioria das vezes que viajamos rumo a lugares agradáveis, atraentes ou puramente desejados e deixamos nossas casas com um certo olhar de orgulho por “sairmos da rotina” ou por respirarmos ares menos “sufocantes”, logo, ao passar dos dias, percebemos que aonde formos, quando a adrenalina ou a aventura não satisfazer mais, desejaremos a volta.
Numa certa entrevista, Rubem Alves disse que deu o seguinte conselho a um de seus clientes ( na época em que exercia psicanálise em seu consultório) sobre uma possível separação conjugal:
“Se o relacionamento estiver podre, num total desgaste, separe. Mas, se você estiver apaixonado por outra mulher não separe, pois na semana que vem tudo vai ser a mesma coisa”
Trazendo uma metáfora de Jesus à tona, pude perceber ali, entre a saudade de um filho e o amor de um pai, um desejo encontrado – A volta do filho pródigo. Para quem não conhece a parábola ou para quem sabe “de có e salteado”, vou reapresentá-la de forma poética através da canção “Fim de tarde no portão” de Stênio Március:
“Fim de tarde no portão
A cabeça branca ao relento
Teimosia de paixão
Faz das cinzas renascer alento
Na estrada o seu olhar
Procurando um vulto conhecido
Espera um dia abraçar
Quem diziam já estar perdido
O seu amor é tão forte
Mais que o inferno e a morte
São torrentes que arrebentam o chão
Mais fácil secar os mares
Apagar a estrela Antares
Que arrancar o amor de seu coração
Fim de tarde se debruça no portão
Mas um dia aconteceu
E o moço retornou mendigo
O pai depressa correu
E abraçou o filho tão querido
Tragam roupas e o anel
Calçem logo os seus pés, milagre!
Vinho do melhor tonel
Tanta alegria em mim não cabe
O seu amor é tão forte…
Fim de tarde, está deserto o portão”.
Imagino que a vocação de Deus seja amar debruçadamente nos portões de nossa consciência, esperar nossa volta com desejo de vida. Como a paz que sentimos no colo de mãe, assim que nascemos, seus gestos são análogos: Não existe dor de parto a ser lembrada, há um desejo ardente de abraçar, sentir.
O mar do esquecimento é o lugar onde Deus coloca nossa rebeldia, egoísmo, nossa ambição de sermos deuses, nossos desejos de morte… O sangue de Cristo, naquela cruz, propagou essa “teimosia de paixão”, perdão.
Aquele pai da parábola simboliza também a maravilhosa graça de Deus comum a todos. Não a “todos que” (tive que apagar o “que” porque não há restrição). Ele está lá, fim de tarde no portão, pronto a nos receber maltrapilhos ou não, como somos e estamos. O condicionamento é nosso, a maçaneta da porta só se abre por dentro.
Ele não está longe, mas e nós? Estamos longe dEle?
Jhônatas Cabral
Ouvir seu timbre é sempre bom
Outubro 29, 2008O que me faria lamentar não ter assistido um programa da Rede Globo? – Rubem Alves no Programa do Jô! Logo me lembrei de olhar no Youtube, ufa! Que alívio! O Jô bem que poderia tê-lo “explorado” mais. Porém, mesmo se fosse um programa exclusivo, seria muito pouco…
Fragmentos ao sabor do vento
Setembro 3, 2008
“João amava Teresa que amava Raimundo
Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
Que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
Que não tinha entrado na história”.
Hoje, esse lindo poema do Mestre Drummond já não é uma comédia como era para mim na adolescência, percebo sua profundidade…
Amar é magnífico quando flui dos dois lados, quando não se tem dúvidas e isso se torna um padrão. Quando não vivemos isso, evidencia-se então uma busca incessante, um desnortear de sentimentos em detrimento a essa música tão melódica e sublime. Entre parênteses: Como não sou muito fã da unanimidade, valorizo as dúvidas.
Procurar e/ou ser achado, esperar e/ou perceber ao redor, aceitar e/ou vê no que dá… Afinal, quais conceitos devemos abraçar? Amar é uma arte, e devemos ser artistas e não somente atores. O encontro do solo com o dueto. Vivendo como solistas, saberemos viver o dueto?
A definição vem sempre acompanhada de perdas, talvez por isso interrogamos tanto. Evidencia-se que capacidade de amar é uma coisa, e capacidade de ser amado é outra. Então como fugir do amor? Todos amam, todos são amados: Conclusão de sentimento do poema. Cada ser tem sua forma de revezar seus papéis. Olhar para trás e extrair o valor de cada carta não lida, de cada beijo não dado, de cada dor não consolada, de cada eu não encontrado, é alcançar o botão que liga o sorriso de “satisfação” do amor, sua estratégia funciona.
Thomas Merton, a quem tenho profunda admiração por sua vida e obra, escreveu que: “O amor não é uma questão de se obter o que se deseja. Muito pelo contrário. A insistência em sempre ter o que se deseja, em sempre obter satisfação, em sempre ser saciado, torna o amor impossível. Para amar, você precisa sair do berço, onde tudo é ‘obter’, e crescer para a maturidade da doação, sem se preocupar em obter alguma coisa especial em troca. O amor não é uma transação, é um sacrifício. Não é marketing, é uma forma de culto. Na realidade, o amor é uma força positiva, um poder espiritual transcendente. É, de fato, o poder criativo mais profundo na natureza humana. Enraizado nas riquezas biológicas de nossa herança, o amor floresce espiritualmente como liberdade e como resposta da criatura à vida num encontro perfeito com uma outra pessoa. É uma apreciação viva da vida como valor e como dom. Responde à fecundidade, à variedade e à total riqueza da própria experiência viva; ele ‘conhece’ o mistério interior da vida. Deleita-se com a vida como uma fortuna inesgotável. O amor aprecia essa fortuna de uma maneira impossível ao conhecimento. O amor tem a sua própria sabedoria, sua própria ciência, sua própria maneira de explorar as profundezas interiores da vida no mistério da pessoa amada. O amor sabe, compreende e satisfaz as exigências da vida, na medida em que responde com calor, abandono e entrega.”
O amor é o sentido e é tão amplo… Só podemos escrever e falar pouco até; já viu mistério ser revelado por completo? Deus é mistério, Deus é amor. E já concordo com Rubem Alves quando diz que: “A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo”.
Jhônatas Cabral
Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
Que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
Que não tinha entrado na história”.
A imagem é de um filme não recomendado para insensíveis.
Julho 13, 2008O Rubem Alves é uma das minhas maiores influências literárias.
Perceber sua pregação com seu timbre, a simplicidade de apresentar de uma forma nova aquilo que já existe de belo, um clamor às coisas mais importantes, verdadeiras e puras como uma criança… Sentir e pensar, escrever, dar algo de bom às pessoas…
Ele é um grande encorajador de tudo isso. E é muito bom acreditar que vale a pena acreditar.
“Todo feto quer nascer, todo sonho quer se realizar. Sementes que não nascem, fetos que são abortados, sonhos que não são realizados, se transformam em demônios dentro da alma. E ficam a nos atormentar. Aquelas tristezas, aquelas depressões, aquelas irritações – vez por outra elas tomam conta de você – aposto que são o sonho de jardim que está dentro e não consegue nascer. Deus não tem muita paciência com pessoas que não gostam de jardins…Menino, os jardins eram o lugar de minha maior felicidade. Dentro da casa os adultos estavam sempre vigiando: “Não mexa aí, não faça isso, não faça aquilo…“ O Paraíso foi perdido quando Adão e Eva começaram a se vigiar. O inferno começa no olhar do outro que pede que eu preste contas. E como as crianças são seres paradisíacos, eu fugia para o jardim. Lá eu estava longe dos adultos. Eu podia ser eu mesmo. O jardim era o espaço da minha liberdade. O jardim era o espaço da minha liberdade. As árvores eram minhas melhores amigas. A pitangueira, com seus frutinhos sem vergonha. Meu primeiro furto foi o furto de uma pitanga: “furto“ – “fruto“ – é só trocar uma letra…. Até mesmo inventei uma maquineta de roubar pitangas… Havia uma jabuticabeira que eu considerava minha, em especial. Fiz um rego à sua volta para que ela bebesse água todo dia. Jabuticabeiras regadas sempre florescem e frutificam várias vezes por ano. Na ocasião da florada era uma festa. O perfume das suas flores brancas é inesquecível. E vinham milhares de abelhas. No pé de nêspera eu fiz um balanço. Já disse que balançar é o melhor remédio para depressão. Quem balança vira criança de novo. Razão por que eu acho um crime que, nas praças públicas, só haja balancinhos para crianças pequenas. Há de haver balanços grandes para os grandes! Já imaginaram o pai e a mãe, o avô e a avó, balançando? Riram? Absurdo? Entendo. Vocês estão velhos. Têm medo do ridículo. Seu sonho fundamental está enterrado debaixo do cimento. Eu já sou avô e me rejuvenesço balançando até tocar a ponta do pé na folha do caquizeiro onde meu balanço está amarrado!” (Rubem Alves)
A leitura de Rubem, o Alves!
Abril 13, 2008Não basta saber ler para ler poesia. Ler poesia é uma arte. Exige que o leitor se coloque numa posição especial de alma. O segredo da poesia está na música da leitura. Mais do que uma arte: é um ato de bruxedo. O leitor invoca um mistério que se encontra nos interstícios das palavras do poeta. Essas palavras estão dentro dele mesmo. O poema faz-me ouvir um poema que está dentro de mim. Esse poema que está dentro de mim é um pedaço de mim.” “Você já experimentou ficar boiando no mar? O corpo todo solto, sem fazer nada, nenhum movimento, subindo e descendo ao sabor das ondas? Pois é assim que se lê poesia: flutuando ao sabor das palavras, sem pressa, em voz alta, poesia é música.” “São falas do coração. Por favor: não tente entender. Música não é para ser entendida. é para ser ouvida. Poesia não é para ser entendida. É para ser lida em voz alta” Rubem Alves
[Difícil ou Fácil]
Dezembro 22, 2007“Jesus ordenou “amar o próximo” porque é fácil amar o distante. O próximo é aquele que está no meu caminho, que tem o poder de me dizer não. Mais difícil que amar os doentes, que são carência pura, fraqueza pura, dependência pura, mendicância pura, é amar aqueles que estão ao meu lado e que são tão fortes quanto eu.”
(Rubem Alves)
Escrito por Jhônatas Cabral
Escrito por Jhônatas Cabral
Escrito por Jhônatas Cabral 



