Nesses tempos de colheita

Junho 7, 2009

Poemas vividos são os que eu guardo na memória,

Na possível esperança de abri-los novamente.

Os anos podem até roubar a nitidez de meu olhar demorado,

Mas jamais usurparão o sentido, o valor de seu legado.

 

Sou incapaz de esquecer a constante busca das respostas,

Das quedas que ninguém chegou a ver,

Das travessuras de um menino,

Que não sabia que era tão penoso crescer.

 

Enchia meus bolsos daquilo que seria bom para os outros.

Vez por outra doava timidamente meus presentes.

E quando alguém me retribuía, em forma de palavras ternas,

Eu sorria, já podia levantar a cabeça.

 

Muitos dos poemas vividos estão distantes, outros descansam,

Mas são inseparáveis e fortes – Petrificam em mim.

Um deles disse que minhas pequenas mãos são bonitas;

Admiram-se até com meus desenhos abstratos.

 

Eu apenas sou grato a eles.

Não me atrevo a ser um soneto, nem rima perfeita.

Tão-somente, quero esvaziar meus bolsos cheios de sementes

Nesse corredor chamado vida, nesses tempos de colheita.

 

Jhônatas

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Janeiro 6, 2009

Falai de Deus com a clareza

da verdade e da certeza:

com um poder

de corpo e alma que não possa

ninguém, à passagem vossa,

não o entender.

Falai de Deus brandamente,

que o mundo se pôs dolente,

tão sem leis.

Falai de Deus com doçura,

que é difícil ser criatura:

bem o sabeis.

Falai de Deus de tal modo

que por Ele o mundo todo

tenha amor

à vida e à morte, e, de vê-Lo,

o escolha como modelo superior.

Com voz, pensamentos e atos

representai tão exatos

os reinos seus,

que todos vão livremente

para esse encontro excelente.

Falai de Deus.

 

 

Cecília Meireles


Um dia hei de completar?

Dezembro 16, 2008

Divago, pois os caminhos se multiplicam.

Divago, pois o vagão do trem está cheio de pensamentos vagos.

Meu trem é meus quartos, meus quartos são meus rumos. Meus rumos são sonhos a executar: olhos abertos.

 

Jhônatas Cabral

 


O Mar e o Amar

Dezembro 4, 2008

Pajuçara 12 

 

Cura minha mão ferida,

Querido mar!

Cura as cicatrizes da vida

Ao te tocar.

 

O que é mais importante pra você?

Só me ouvir ou me responder?

 

No meu coração enganoso

Lanço-me em ti.

No seu oceano amoroso

Consigo amar, venci!

 

Agora, o que é mais importante para mim?

Só te ouvir ou responder-te sim?  

 

Vejo essa pedra e imagino uma ponte,

Medito…

Quero navegar-te além do horizonte,

Finito…

 

Aí me lembro da surpresa

E do prazer que ela traz.

O choro é beleza,

O inesperado é paz.

 

Jhônatas Cabral


Quando quiserem nos silenciar, lembremos do Drummond:

Novembro 14, 2008

 

“Certas palavras não podem ser ditasquino_demo

em qualquer lugar e hora qualquer.

Estritamente reservadas

para companheiros de confiança,

devem ser sacralmente pronunciadas

em tom muito especial

lá onde a polícia dos adultos

não adivinha nem alcança.

 

Entretanto são palavras simples:

definem

partes do corpo, movimentos, atos

do viver que só os grandes se permitem

e a nós é defendido por sentença

dos séculos

 

E tudo proibido. Então, falamos.” (Drummond)


Desejo de saudade

Novembro 10, 2008

Entre o último beijo da noite e seus olhos,

há um desapego de mim, uma entrega.

 

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Eu quero ficar quando você diz:  Fica ,

o branco de seus olhos me atrai.

 

Teu rosto se encaixa em minhas mãos

e o nosso silêncio,

como descompasso de coração,

retarda a saudade por um momento.

 

Despeço-me de ti, porque quero ter saudade.

Mas uma saudade mansa daquelas que acendem a lua

e me faz desejar seu pomar mesmo quando sou pássaro selvagem, livre.

 

Essa saudade é dor boa de sentir!

Um encanto com a certeza de um novo encontro,

(sonho de solista vivendo um dueto)

onde a brisa suave da solidão de um poeta

se faz poesia de desejo de saudade,

querer-te.

 

Jhônatas Cabral


Dia de limpeza

Novembro 4, 2008

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Dia de limpeza de quarto, ferrugem de corda de violão, alma.

Dia que arrumo meus livros, CDs, DVDs, mente.

Dia que se faz dia com a poeira entre as narinas e a purificação do espirro.

Dia de receber as visitas das lembranças boas e ruins.

Dizem que nossos quartos são fortalezas, mas toda fortaleza tem um ponto vulnerável o qual revela como invadir.

Diabruras nos fazem rir, doar carinho, olhar planetas disfarçados de estrelas.

Dispersar é uma dádiva divina para a magia do encontro.

Diante do encaixe dos objetos separados, a esperança flerta com nossos corações – As veias se dilatam.

“Dia-maré”, que vai e vem. Em um momento nos encontramos na faixa da privação, em outro nos é permitido a ultrapassagem da vastidão dos sentimentos.

Dia de limpeza e já viramos a noite, ainda falta limpar as palavras.

 

Jhônatas Cabral


Amor em silêncio

Outubro 30, 2008

 

                                                                

Eu a vi.

Ela olhou pra mim,

E sorriu.

Eu fiquei olhando, relutei, mas olhei novamente.

Ela não olhou mais,

Seguiu.

Em minha mente não.

Ela olhou de novo, veio ao meu encontro.

Pois é como teria de ser.

Ela voltando, já que fui tantas vezes…

Anos sonhando, dez segundos de realidade.

Realidade que só podia ser sonhada, desejada.

Como pode dez segundos ser uma eternidade?

E como pode uma eternidade ter um fim?

E como, em meio a tudo isso,

Prevalece a paz de tão-somente vê-la sorrir?

Silencio… Quero viver o sonho, mas querer já não é poder…

Escrevo, pois já não se torna tão silêncio.

As palavras formam uma pausa desse amor

e contrario suas regras…

Contudo, fico quite com minha natureza amante e expressiva

Pela qual me torno mais forte, mesmo sendo fraco.

[E já divido espinhos com Paulo, o apóstolo].

Dez segundos,

Uma flor azul,

Um sorriso “monalisa”

E um seguir em frente.

Jhônatas Cabral


Outubro 3, 2008

“Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.”

(A. Caeiro) F. Pessoa


O poeta que queria chegar ao coração

Setembro 2, 2008

 

Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!

 

Fernando Pessoa, 5-9-1934.